Aqui está o resultado depois da revisão, agora por odem. Não me parece que vá pegar mais nisto até ao próximo Inverno...
VIAGEM DE INVERNO
(Wilhelm Müller, tradução de Tiago Batista)
1 - BOA NOITE!
Cheguei desconhecido
e assim torno a partir.
Maio foi tão querido
de ramos a florir!...
Ela falou de amor
e a mãe de casamento.
Apagou-se o fulgor
e é de neve o momento.
A hora da partida
não foi minha eleição:
só, traço a minha vida
por esta escuridão.
Uma sombra de lua
puxa-me pela estrada
e o caçador, na rua,
sigo pela pegada.
Porquê esperar então
que daqui me escorracem?
Que ladre o vosso cão
aos que por aqui passem!
Deus fez o amor assim,
numa estrada perdida
vadiando sem fim:
boa noite, querida!
Não quero incomodar
teu sonho e teu descanso;
não deves escutar
meu pé furtivo e manso!
Escrevo ao teu portão
"boa noite!" ao passar,
e saberás então
que sempre te hei-de amar.
2 - O CATA-VENTO
O vento brinca com o cata-vento
que está sobre a casa da minha amada.
Delirei logo, no meu pensamento:
apupa a minha fuga desgraçada!
"Devia ter-se dado conta logo
de que esta casa ostentava um brasão;
fidelidade em mulheres de fogo...
nunca devia ter essa ilusão.
"O vento brinca com os corações,
como no telhado, mas mais baixinho.
Não entendem as alucinações?
Tem uma rica noiva, o vosso ninho!
3 - LÁGRIMAS GELADAS
Caem gotas geladas
na face a cada lado:
não tinha percebido
quanto tenho chorado?
Lágrimas, minhas lágrimas,
sois frias como o rio
que se converte em gelo,
como o orvalho mais frio?
Mas brotais do meu peito
quente como o inferno
querendo derreter
todo o gelo do Inverno.
4 – FIXAÇÃO
Busco na neve em vão
as marcas do seu passo
rasgando a relva verde
cingida no meu braço.
Quero beijar o chão,
romper a neve e gelo
com lágrimas ardentes,
até conseguir vê-lo.
Onde encontro erva verde,
onde encontro uma flor?
As flores estão mortas,
a relva está sem cor.
Então não levarei
recordações daqui?
Se a minha dor se cala,
quem falará de ti?
Congelada no peito
a imagem da mulher,
se o coração derrete,
teria que esquecer.
5 - A TÍLIA
Para lá do portão,
uma tília achei;
e quantos doces sonhos
nessa sombra sonhei!...
Gravei na sua casca
tantas frases de amor,
atraído para ela
na alegria e na dor.
Nesta noite profunda
tive que ir por ali,
e até mesmo no escuro
os olhos não abri.
E os ramos murmuravam
guinchando para mim:
aqui comigo, amigo,
terias paz por fim!
O vento, mesmo frio,
contra o rosto soprou;
e eu nem quis apanhar
o chapéu que voou.
Agora, há tantas horas
longe desse jardim,
sempre escuto essa voz:
terias paz por fim!
6 - TORRENTE DE ÁGUA
Muitas lágrimas caíram
dos meus olhos sobre a neve;
os flocos frios chuparam,
sedentos da dor que ferve.
Se as ervas querem brotar,
sopra ali um morno vento
e é o gelo a estalar,
neve branda derretendo.
Neve, vês as minhas penas,
diz: onde dá o teu caminho?
segue as lágrimas apenas,
levar-te-á o ribeirinho.
Com ele irás percorrer
a alegria pela estrada;
e se esta lágrima arder,
aí vive a minha amada.
7 - NO RIO
Tu, rio, que murmuravas
brilhante, alegre e selvagem,
agora estás tão calado,
nem saúdas à passagem!
Cobriste-te totalmente
de uma crosta congelada,
frio, imóvel, estendido
pela margem, pela estrada.
Com uma pedra bicuda
escrevi na crosta fria
o nome da minha amada
e também a hora, o dia:
o dia em que a conheci,
o dia em que fui embora;
formou-se um anel quebrado
do nome, do dia e hora.
Meu coração, neste rio
vês agora a tua imagem?
Também, sob a sua crosta,
entumesce assim selvagem?
8 - OLHAR RETROSPECTIVO
De tanto gelo e neve atravessar
já me ardem os dois pés sem piedade.
Não queria voltar a respirar
enquanto vir as torres da cidade.
Contra cada pedra o meu pé bateu,
fugi dali com passos apressados;
os corvos lançam neve ao meu chapéu,
de cada casa lançam cadeados.
Não foi assim, quando me recebia,
aquela cidade dos inconstantes!
Cantavam rouxinol e cotovia
ao desafio, às janelas brilhantes.
Tão redondas, as tílias floriam,
as ribeiras reflectiam o céu,
e dois olhos de donzela luziam! -
- foi assim que tudo te aconteceu!
Se esse dia me vem ao pensamento,
olhando retrospectivo, vacilo,
recuo, queria estar um momento
perante a sua casa, ali, tranquilo.
9 - FOGO-FÁTUO
Para o abismo mais profundo
um fogo-fátuo me atraiu:
e como vou voltar ao mundo?
isso nunca mais me afligiu.
Acostumei-me à perversão;
qualquer via vai dar ao fim:
a alegria e a aflição
são só fogo-fátuo, enfim!
Sigo agora um rio a secar,
calmo, na minha ondulação -
- cada rio tem o seu mar,
cada dor tem o seu caixão.
10 - DESCANSO
Agora noto como estou cansado
porque me deitei para repousar;
caminhando, mantive-me animado
por vias inóspitas, sem parar.
Os meus pés nunca pediram descanso,
que se parasse, o frio congelava;
o peso às costas parecia manso
e era a tempestade que me empurrava.
Na casa apertada de um carvoeiro
consegui encontrar o meu abrigo;
as feridas que fiz no corpo inteiro
ardem sem descanso, como um castigo.
Também tu, coração atormentado,
em luta, tão selvagem, tão valente,
sentes agora, com tudo parado,
a mordedura da tua serpente!
11 - SONHO DE PRIMAVERA
Sonhei com flores coloridas
como em Maio desabrochando;
sonhei com prados verdejantes,
com aves alegres cantando.
E quando ouvi cantar os galos,
o meu olhar foi acordado;
tudo é frio e escuridão,
crocitam corvos do telhado.
Quem pintou as folhas ali
no vidro da minha janela?
Riem-se assim do sonhador
que viu no Inverno a flor mais bela?
Sonhei com amor por amor
com uma bonita mulher,
com beijos e com corações
e a felicidade, o prazer.
E quando ouvi cantar os galos,
o meu coração despertou;
fiquei sentado aqui sozinho
pensando o sonho que passou.
Fechei os olhos outra vez,
no peito conservo o calor.
Quando vos verei, folhas verdes?
Quando terei o meu amor?
12 - SOLIDÃO
Como uma nuvem escura
anda pelo céu sereno
quando sopra pela copa
do pinheiro um vento ameno,
assim faço o meu caminho
arrastando os pés na estrada,
pela vida alegre e clara
sozinho e sem dizer nada.
Como o ar é tão tranquilo!
Como o mundo é tão amável!
Quando passei tempestades,
não era tão miserável.
13 - O CORREIO
Chega o correio a este canto!
Porque te sobressaltas tanto,
meu coração?
Teu correio não tem chegado.
Porque bates maravilhado,
meu coração?
Agora sim, vem o carteiro
de onde eu vivi o amor primeiro,
meu coração!
Vais lá saber do teu passado
e ver como ela tem passado,
meu coração?
14 - A CABEÇA GRISALHA
O brilho branco que a geada
me espalhou no cabelo
fez-me grisalho por um nada
e alegrei-me ao sabê-lo.
Mas depressa se desvanece,
tenho cabelo escuro;
é a juventude o que acontece,
quão longe, o meu futuro!
Do pôr-do-sol à madrugada
muitos ficam grisalhos.
E a minha cabeça é poupada
após tantos trabalhos?
15 - O CORVO
Um corvo veio comigo,
partiu da cidade;
sempre aqui como um amigo,
há uma eternidade.
Corvo, fantástico bicho,
não queres deixar-me?
Quando eu morrer e for lixo,
queres apanhar-me?
Já não há mais caminhada
para o meu cajado.
És por fim fidelidade
até ser sepultado!
16 - ÚLTIMA ESPERANÇA
Nos ramos, vê-se, aqui e ali,
algumas folhas coloridas;
em frente às árvores eu fico
com tantas ideias perdidas.
Fico a olhar para uma folha,
aí ponho a minha esperança;
o vento brinca com a folha
e treme a minha confiança.
Mas ai! que a folha cai então
e a esperança assim coitada;
eu próprio vou com ela ao chão
chorar a esperança enterrada.
17 - NA POVOAÇÃO
Ladram os cães, arrastam as correntes;
as pessoas dormem em camas quentes,
sonhando com tudo o que não conseguem,
fazendo o que devem e o que não devem:
e de manhã cedo é tudo apagado.
Mas lá tiveram o seu bom bocado
e esperam as fantasias deixadas
por encontrar nas suas almofadas.
Ladrem, cães de guarda! Mandem-me embora!
Não me deixem repousar a esta hora!
Dos sonhos já perdi todas as cores;
porque continuo entre os sonhadores?
18 - MANHÃ TEMPESTUOSA
A tempestade esfarrapou
o traje cinzento do Inverno!
Os flocos de nuvens flutuam
num suave combate interno.
E encarnadas chamas de fogo
entre as nuvens vão flamejando
a isto eu chamo uma manhã
ao meu gosto, assim, delirando!
O meu coração vê no céu
exactamente a sua imagem –
- é só a isto que eu chamo Inverno,
o Inverno frio e selvagem!
19 - ENGANO
Amigável, dança uma luz;
segui-la sempre é a minha cruz.
Sigo com gosto, reparando
que ela me seduz caminhando.
Ah! quem está como eu perdido,
vai-se no jogo colorido
que entre o gelo, a noite e o horror
dá uma casa de luz, calor,
e lá dentro uma alma querida -
- só fica a ilusão perdida!...
20 - O SINAL
Porque é que eu evito os caminhos
por todos os outros andados,
e busco atalhos escondidos
por altos rochedos nevados?
Terei cometido algum crime
que assim das pessoas me afasta?
Qual será o insensato fim
que para os desertos me arrasta?
Vejo setas pelas estradas,
pelas cidades onde passo;
e eu, em desmedidas passadas,
sem repouso para o cansaço.
Vejo um sinal que se insinua;
perante o meu olhar ficou;
tenho que seguir esta rua
da qual nunca ninguém voltou.
21 - ALBERGUE
O meu caminho trouxe-me a um cemitério.
Desejo aqui ficar pensando o meu mistério.
Grinaldas verdes indicam a albergaria;
Cansado de andar, chama-me esta terra fria.
Estão todos tomados os quartos aqui?
Cansado da queda, do quanto me feri,
albergue impiedoso, por ti sou rejeitado?
Voltemos ao caminho, ó meu fiel cajado!
22 - FORÇA!
Sacudo de mim a neve
se o vento a sopra a direito.
Canto, colorido e leve,
se sinto uma dor no peito.
Não escuto o coração,
para ele não tenho ouvidos;
o seu queixume é em vão:
só tolos choram gemidos!
Pelo mundo vou andando
contra o tempo e contra o vento!
e num deus se vai tornando,
quem na Terra O foi perdendo!
23 - OS SÓIS JUNTOS
Lá no céu eu vi três sóis a brilhar,
Segurei-os longamente no olhar;
e ali ficaram como que fixados,
não querendo ser de mim afastados.
Ah, mas vocês não são os meus três sóis!
Olhem para outro rosto qualquer, pois!
Também eu tive três, tão inocente:
e os dois melhores seguiram em frente.
Se só o terceiro se pudesse pôr!
Na escuridão estaria melhor.
24 - O HOMEM DO REALEJO
Para lá da povoação
está um homem do realejo;
os dedos, em congelação,
tocam o que podem e eu vejo.
Já nem sequer tem um sapato
para andar daqui para ali,
para as moedas tem um prato
mas dinheiro nunca lá vi.
Ninguém o deseja escutar,
ninguém quer olhar para ele
e os cães não deixam de ladrar
ao velho e à música dele.
Mas ele não tem qualquer pejo,
tudo vai deixando passar,
dá à mão e o seu realejo
nunca mais deixa de tocar.
Velho das alucinações,
e se eu ficasse aqui contigo?
meus poemas, minhas canções,
não queres tocar, meu amigo?
quinta-feira, 4 de março de 2010
quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010
Agora, rever de novo!
Ainda há Inverno para gastar. Como as traduções foram feitas à pressa, vou dedicar-me agora a corrigir e ordenar o que publiquei. Mas hoje não, estou farto desta viagem!
E finalmente!...
24 - O HOMEM DO REALEJO
Para lá da povoação
está um homem do realejo;
os dedos, em congelação,
tocam o que podem e eu vejo.
Já nem sequer tem um sapato
para andar daqui para ali,
para as moedas tem um prato
mas dinheiro nunca lá vi.
Ninguém o deseja escutar,
Ninguém quer olhar para ele
e os cães não deixam de ladrar
ao velho e à música dele.
Mas ele não tem qualquer pejo,
tudo vai deixando passar,
dá à mão e o seu realejo
nunca mais deixa de tocar.
Velho das alucinações,
e se eu ficasse teu amigo?
meus poemas, minhas canções,
gostavas de tocar comigo?
Para lá da povoação
está um homem do realejo;
os dedos, em congelação,
tocam o que podem e eu vejo.
Já nem sequer tem um sapato
para andar daqui para ali,
para as moedas tem um prato
mas dinheiro nunca lá vi.
Ninguém o deseja escutar,
Ninguém quer olhar para ele
e os cães não deixam de ladrar
ao velho e à música dele.
Mas ele não tem qualquer pejo,
tudo vai deixando passar,
dá à mão e o seu realejo
nunca mais deixa de tocar.
Velho das alucinações,
e se eu ficasse teu amigo?
meus poemas, minhas canções,
gostavas de tocar comigo?
8 - OLHAR RECTROSPECTIVO
De tanto gelo e neve atravessar
já me ardem os dois pés sem piedade.
Não queria voltar a respirar
enquanto vir as torres da cidade.
Contra cada pedra o meu pé bateu,
fugi dali com passos apressados;
os corvos lançam neve ao meu chapéu,
de cada casa lançam cadeados.
Não foi assim, quando me recebia,
aquela cidade dos inconstantes!
Cantavam rouxinol e cotovia
ao desafio, às janelas brilhantes.
Tão redondas, as tilias floriam,
os arroios reflectiam o céu,
e dois olhos de donzela luziam! -
- foi assim que tudo te aconteceu!
Se esse dia me vem ao pensamento,
olhando rectrostectivo, vacilo,
recuo, queria estar um momento
perante a sua casa, ali, tranquilo.
De tanto gelo e neve atravessar
já me ardem os dois pés sem piedade.
Não queria voltar a respirar
enquanto vir as torres da cidade.
Contra cada pedra o meu pé bateu,
fugi dali com passos apressados;
os corvos lançam neve ao meu chapéu,
de cada casa lançam cadeados.
Não foi assim, quando me recebia,
aquela cidade dos inconstantes!
Cantavam rouxinol e cotovia
ao desafio, às janelas brilhantes.
Tão redondas, as tilias floriam,
os arroios reflectiam o céu,
e dois olhos de donzela luziam! -
- foi assim que tudo te aconteceu!
Se esse dia me vem ao pensamento,
olhando rectrostectivo, vacilo,
recuo, queria estar um momento
perante a sua casa, ali, tranquilo.
quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010
23 - OS SÓIS JUNTOS
Lá no céu eu vi três sóis a brilhar,
Segurei-os longamente no olhar;
e ali ficaram como que fixados,
não querendo ser de mim afastados.
Ah, mas vocês não são os meus três sóis!
Olhem para outro rosto qualquer, pois!
Também eu tive três, tão inocente:
e os dois melhores seguiram em frente.
Se só o terceiro se pudesse pôr!
Na escuridão estaria melhor.
Lá no céu eu vi três sóis a brilhar,
Segurei-os longamente no olhar;
e ali ficaram como que fixados,
não querendo ser de mim afastados.
Ah, mas vocês não são os meus três sóis!
Olhem para outro rosto qualquer, pois!
Também eu tive três, tão inocente:
e os dois melhores seguiram em frente.
Se só o terceiro se pudesse pôr!
Na escuridão estaria melhor.
11 - SONHO DE PRIMAVERA
Sonhei com flores coloridas
como em Maio desabrochando;
sonhei com prados verdejantes,
com aves alegres cantando.
E quando ouvi cantar os galos,
o meu olhar foi acordado;
tudo é frio e escuridão,
crucitam corvos do telhado.
Quem pintou as folhas ali
no vidro da minha janela?
Riem-se assim do sonhador
que viu no Inverno a flor mais bela?
Sonhei com amor por amor
com uma bonita mulher,
com beijos e com corações
e a felicidade, o prazer.
E quando ouvi cantar os galos,
o meu coração despertou;
fiquei sentado aqui sozinho
pensando o sonho que passou.
Fechei os olhos outra vez,
no peito conservo o calor.
Quando vos verei, folhas verdes?
Quando terei o meu amor?
Sonhei com flores coloridas
como em Maio desabrochando;
sonhei com prados verdejantes,
com aves alegres cantando.
E quando ouvi cantar os galos,
o meu olhar foi acordado;
tudo é frio e escuridão,
crucitam corvos do telhado.
Quem pintou as folhas ali
no vidro da minha janela?
Riem-se assim do sonhador
que viu no Inverno a flor mais bela?
Sonhei com amor por amor
com uma bonita mulher,
com beijos e com corações
e a felicidade, o prazer.
E quando ouvi cantar os galos,
o meu coração despertou;
fiquei sentado aqui sozinho
pensando o sonho que passou.
Fechei os olhos outra vez,
no peito conservo o calor.
Quando vos verei, folhas verdes?
Quando terei o meu amor?
10 - DESCANSO
Agora noto como estou cansado
porque me deitei para repousar;
o caminhar manteve-me animado,
por vias inóspitas, sem parar.
Os meus pés nunca pediram descanso,
que se parasse, o frio congelava;
o peso às costas parecia manso
e a própria tempestade me empurrava.
Na casa apertada de um carvoeiro
consegui encontrar o meu abrigo;
as feridas que fiz no corpo inteiro
ardem sem descanso, como um castigo.
Também tu, coração atormentado,
em luta, tão selvagem, tão valente,
sentes agora, com tudo parado,
a mordedura da tua serpente!
Agora noto como estou cansado
porque me deitei para repousar;
o caminhar manteve-me animado,
por vias inóspitas, sem parar.
Os meus pés nunca pediram descanso,
que se parasse, o frio congelava;
o peso às costas parecia manso
e a própria tempestade me empurrava.
Na casa apertada de um carvoeiro
consegui encontrar o meu abrigo;
as feridas que fiz no corpo inteiro
ardem sem descanso, como um castigo.
Também tu, coração atormentado,
em luta, tão selvagem, tão valente,
sentes agora, com tudo parado,
a mordedura da tua serpente!
terça-feira, 23 de fevereiro de 2010
16 - ÚLTIMA ESPERANÇA
Nos ramos, vê-se, aqui e ali,
algumas folhas coloridas;
em frente às árvores eu fico
com tantas ideias perdidas.
Fico a olhar para uma folha,
aí ponho a minha esperança;
o vento brinca com a folha
e treme a minha confiança.
Mas ai! que a folha cai então
e a esperança assim coitada;
eu próprio vou com ela ao chão
chorar a esperança arrasada.
Nos ramos, vê-se, aqui e ali,
algumas folhas coloridas;
em frente às árvores eu fico
com tantas ideias perdidas.
Fico a olhar para uma folha,
aí ponho a minha esperança;
o vento brinca com a folha
e treme a minha confiança.
Mas ai! que a folha cai então
e a esperança assim coitada;
eu próprio vou com ela ao chão
chorar a esperança arrasada.
12 - SOLIDÃO
Como uma núvem escura
anda pelo céu sereno
quando sopra pela copa
do pinheiro um vento ameno:
assim faço o meu caminho
arrastando os pés na estrada,
pela vida, alegre e clara,
sozinho e sem dizer nada.
Como o ar é tão tranquilo!
Como o mundo é tão amável!
Quando passei tempestades,
não era tão miserável.
Como uma núvem escura
anda pelo céu sereno
quando sopra pela copa
do pinheiro um vento ameno:
assim faço o meu caminho
arrastando os pés na estrada,
pela vida, alegre e clara,
sozinho e sem dizer nada.
Como o ar é tão tranquilo!
Como o mundo é tão amável!
Quando passei tempestades,
não era tão miserável.
9 - FOGO-FÁTUO
Para o abismo mais profundo
um fogo-fátuo me atraiu:
e como vou voltar ao mundo?
isso nunca mais me afligiu.
Acostumei-me à perversão;
qualquer via vai dar ao fim:
a alegria e a aflição
são só fogo-fátuo, enfim!
Sigo agora um rio a secar,
calmo, na minha ondulação -
- cada rio tem o seu mar,
cada dor tem o seu caixão.
Para o abismo mais profundo
um fogo-fátuo me atraiu:
e como vou voltar ao mundo?
isso nunca mais me afligiu.
Acostumei-me à perversão;
qualquer via vai dar ao fim:
a alegria e a aflição
são só fogo-fátuo, enfim!
Sigo agora um rio a secar,
calmo, na minha ondulação -
- cada rio tem o seu mar,
cada dor tem o seu caixão.
14 - A CABEÇA GRISALHA
O brilho branco que a geada
me espalhou no cabelo
fez-me grisalho por um nada
e alegrei-me ao sabê-lo.
Mas depressa se desvanece,
tenho cabelo escuro;
é a juventude o que acontece,
quão longe, o meu futuro!
Do pôr-do-sol à madrugada
muitos ficam grisalhos.
E a minha cabeça é poupada
após tantos trabalhos?
17 - NA POVOAÇÃO
Ladram os cães, arrastam as correntes;
as pessoas dormem em camas quentes,
sonhando-se o tanto que não conseguem,
fazendo o que devem e o que não devem:
E de manhã cedo é tudo apagado.
Mas lá tiveram o seu bom bocado
e esperam as fantasias deixadas
por encontrar nas suas almofadas.
Ladrem, cães de guarda! Mandem-me embora!
Não me deixem repousar a esta hora!
Dos sonhos já perdi todas as cores;
porque hei-de continuar entre os sonhadores?
O brilho branco que a geada
me espalhou no cabelo
fez-me grisalho por um nada
e alegrei-me ao sabê-lo.
Mas depressa se desvanece,
tenho cabelo escuro;
é a juventude o que acontece,
quão longe, o meu futuro!
Do pôr-do-sol à madrugada
muitos ficam grisalhos.
E a minha cabeça é poupada
após tantos trabalhos?
17 - NA POVOAÇÃO
Ladram os cães, arrastam as correntes;
as pessoas dormem em camas quentes,
sonhando-se o tanto que não conseguem,
fazendo o que devem e o que não devem:
E de manhã cedo é tudo apagado.
Mas lá tiveram o seu bom bocado
e esperam as fantasias deixadas
por encontrar nas suas almofadas.
Ladrem, cães de guarda! Mandem-me embora!
Não me deixem repousar a esta hora!
Dos sonhos já perdi todas as cores;
porque hei-de continuar entre os sonhadores?
domingo, 21 de fevereiro de 2010
7 - NO RIO
Tu, rio, que murmuravas
bilhante, alegre e selvagem,
agora estás tão calado,
nem saudas à passagem!
Cobriste-te totalmente
de uma crosta congelada,
frio, imóvel, estendido
pela margem, pela estrada.
Com uma pedra bicuda
escrevi na crosta fria
o nome da minha amada
e também a hora, o dia:
O dia em que a conheci,
o dia em que fui embora;
formou-se um anel quebrado
do nome, do dia e hora.
Meu coração, neste rio
vês agora a tua imagem?
Também, sob a sua crosta,
entumesce assim selvagem?
Tu, rio, que murmuravas
bilhante, alegre e selvagem,
agora estás tão calado,
nem saudas à passagem!
Cobriste-te totalmente
de uma crosta congelada,
frio, imóvel, estendido
pela margem, pela estrada.
Com uma pedra bicuda
escrevi na crosta fria
o nome da minha amada
e também a hora, o dia:
O dia em que a conheci,
o dia em que fui embora;
formou-se um anel quebrado
do nome, do dia e hora.
Meu coração, neste rio
vês agora a tua imagem?
Também, sob a sua crosta,
entumesce assim selvagem?
terça-feira, 16 de fevereiro de 2010
Torrente de Água
6 - TORRENTE DE ÁGUA
Muitas lágrimas cairam
dos meus olhos sobre a neve;
os frios flocos chuparam,
sedentos da dor que ferve.
Se as ervas querem brotar,
sopra ali um morno vento
e é o gelo a estalar,
neve branda derretendo.
Neve, vês as minhas penas,
diz: onde dá o teu caminho?
segue as lágrimas apenas,
levar-te-á o ribeirinho.
Com ele irás percorrer
a alegria pela estrada;
e se esta lágrima arder,
aí vive a minha amada.
Muitas lágrimas cairam
dos meus olhos sobre a neve;
os frios flocos chuparam,
sedentos da dor que ferve.
Se as ervas querem brotar,
sopra ali um morno vento
e é o gelo a estalar,
neve branda derretendo.
Neve, vês as minhas penas,
diz: onde dá o teu caminho?
segue as lágrimas apenas,
levar-te-á o ribeirinho.
Com ele irás percorrer
a alegria pela estrada;
e se esta lágrima arder,
aí vive a minha amada.
18 - A MANHÃ TEMPESTUOSA
A tempestade esfarrapou
o traje cinzento do Inverno!
Os flocos de núvens flutuam
num suave combate interno.
E encarnadas chamas de fogo
entre as núvens vão flamejando
a isto eu chamo uma manhã
ao meu gosto, assim, delirando!
O meu coração vê no céu
exactamente a sua imagem -
- é nada mais que o Inverno,
o Inveno frio e selvagem!
20 - O SINAL
Porque é que eu evito os caminhos
por todos os outros andados,
e busco atalhos escondidos
por altos rochedos nevados?
Terei cometido algum crime
que assim das pessoas me afasta?
Qual será o insensato fim
que para os desertos me arrasta?
Vejo sinais pelas estradas,
pelas cidades onde passo;
e eu, em desmedidas passadas,
sem repouso para o cansaço.
Vejo um sinal que se insinua;
perante o meu olhar ficou;
tenho que seguir esta rua
da qual nunca ninguém voltou.
21 - ALBERGUE
O meu caminho veio até a um cemitério.
Desejo aqui ficar pensando o meu mistério.
Grinaldas verdes indicam a abegoaria;
Cansado de andar, chama-me esta terra fria.
Estão todos tomados os quartos aqui?
Cansado da queda, do quanto me feri,
albergue impiedoso, por ti sou rejeitado?
Voltemos ao caminho, ó meu fiel cajado!
A tempestade esfarrapou
o traje cinzento do Inverno!
Os flocos de núvens flutuam
num suave combate interno.
E encarnadas chamas de fogo
entre as núvens vão flamejando
a isto eu chamo uma manhã
ao meu gosto, assim, delirando!
O meu coração vê no céu
exactamente a sua imagem -
- é nada mais que o Inverno,
o Inveno frio e selvagem!
20 - O SINAL
Porque é que eu evito os caminhos
por todos os outros andados,
e busco atalhos escondidos
por altos rochedos nevados?
Terei cometido algum crime
que assim das pessoas me afasta?
Qual será o insensato fim
que para os desertos me arrasta?
Vejo sinais pelas estradas,
pelas cidades onde passo;
e eu, em desmedidas passadas,
sem repouso para o cansaço.
Vejo um sinal que se insinua;
perante o meu olhar ficou;
tenho que seguir esta rua
da qual nunca ninguém voltou.
21 - ALBERGUE
O meu caminho veio até a um cemitério.
Desejo aqui ficar pensando o meu mistério.
Grinaldas verdes indicam a abegoaria;
Cansado de andar, chama-me esta terra fria.
Estão todos tomados os quartos aqui?
Cansado da queda, do quanto me feri,
albergue impiedoso, por ti sou rejeitado?
Voltemos ao caminho, ó meu fiel cajado!
domingo, 14 de fevereiro de 2010
Para o dia dos namorados, traduções mais "românticas":
5 - A TILIA
No poço do portão
uma tilia achei,
e quantos doces sonhos
à sua sombra sonhei!...
Gravei na sua casca
tantas frases de amor,
sempre atraído a ela
na alegria e na dor.
Nesta noite profunda
tive que ir por ali,
E até mesmo no escuro
os olhos não abri.
E os ramos murmuravam
guinchando para mim:
aqui comigo, amigo,
terias paz por fim!
O vento, mesmo frio,
contra o rosto soprou;
nem voltei para apanhar
o chapéu que voou.
Agora, há tantas horas
longe desse lugar,
sempre escuto essa voz:
a paz por encontrar!
5 - A TILIA
No poço do portão
uma tilia achei,
e quantos doces sonhos
à sua sombra sonhei!...
Gravei na sua casca
tantas frases de amor,
sempre atraído a ela
na alegria e na dor.
Nesta noite profunda
tive que ir por ali,
E até mesmo no escuro
os olhos não abri.
E os ramos murmuravam
guinchando para mim:
aqui comigo, amigo,
terias paz por fim!
O vento, mesmo frio,
contra o rosto soprou;
nem voltei para apanhar
o chapéu que voou.
Agora, há tantas horas
longe desse lugar,
sempre escuto essa voz:
a paz por encontrar!
sábado, 13 de fevereiro de 2010
Agora reparo: faz exactamente um ano que este blogue começou! É dia de Parabéns! Não sei se o João se vai lembrar desta data, mas espero que sim. Acho que é um bom momento para lhe enviar uma mensagem a relembrar e tentar quebrar o gelo outra vez...
13 - O CORREIO
Chega o correio a este canto!
Porque te sobressaltas tanto,
meu coração?
Teu correio não tem chegado.
Porque bates maravilhado,
meu coração?
Agora sim, vem o carteiro
de onde eu vivi o amor primeiro,
meu coração!
Vais lá saber do teu passado
e ver como ela tem passado,
meu coração?
13 - O CORREIO
Chega o correio a este canto!
Porque te sobressaltas tanto,
meu coração?
Teu correio não tem chegado.
Porque bates maravilhado,
meu coração?
Agora sim, vem o carteiro
de onde eu vivi o amor primeiro,
meu coração!
Vais lá saber do teu passado
e ver como ela tem passado,
meu coração?
Finalmente, o fim-de-semana de Carnaval! Estive a olhar para as letras que tenho traduzidas do Inverno passado: quais as que mais se enquadram nesta época festiva e colorida, mas também mórbida e fria, pelo menos aqui na Europa? Escolhi as seguintes:
19 - ENGANO
Amigável, dança uma luz;
segui-la sempre é a minha cruz.
Sigo com gosto, reparando
que ela me seduz caminhando.
Ah! quem está como eu perdido,
vai-se no jogo colorido
que entre o gelo, a noite e o horror
dá uma casa de luz, calor,
e lá dentro uma alma querida -
- só fica a ilusão perdida!...
22 - FORÇA!
Sacudo de mim a neve
se ela me sopra no rosto.
Canto, colorido e leve,
se o meu peito está indisposto.
Não escuto o coração,
para ele não tenho ouvidos;
o seu queixume é em vão:
só tolos choram gemidos!
Pelo mundo vou andando
contra o tempo e contra o vento!
e num deus se vai tornando,
quem na Terra O foi perdendo!
Também se podia incluir no Carnaval a canção número 9 (Irrlicht), mas não encontro aqui o diário em que a tenho traduzida...
sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010
Já que tomei balanço...
Algumas canções parecem-me possiveis de traduzir de forma a encaixar na música, mas outras são impossiveis. O alemão consegue por vezes condensar em demasiado poucas silabas várias ideias diferentes. Bem, a verdade é que ainda não estou completamente convencido sobre esta versão cantada em português, daí que não me dediquei verdadeiramente à adaptação destas traduções à música. Pouco a pouco. Por agora só desejo mostrar algumas das traduções que no ano passado comecei a elaborar e que agora tenho a oportunidade de rever. A que se segue, por exemplo, teve que ser bastante alterada, uma vez que estava demasiado pessoal e descuidada na forma em que a deixei no meu diário do Inverno passado. Agora está mais apresentável e melhor:
3 - LÁGRIMAS GELADAS
Caem gotas geladas
na face a cada lado:
não tinha percebido
quanto tenho chorado?
Lágrimas, minhas lágrimas,
sois frias como o rio
que se converte em gelo,
como o orvalho mais frio?
Mas brotais do meu peito
ardente como o inferno
querendo derreter
todo o gelo do Inverno.
3 - LÁGRIMAS GELADAS
Caem gotas geladas
na face a cada lado:
não tinha percebido
quanto tenho chorado?
Lágrimas, minhas lágrimas,
sois frias como o rio
que se converte em gelo,
como o orvalho mais frio?
Mas brotais do meu peito
ardente como o inferno
querendo derreter
todo o gelo do Inverno.
4 - FIXAÇÃO
Busco na neve em vão
as marcas do seu passo
rasgando a relva verde
cingida no meu braço.
Quero beijar o chão,
romper a neve e gelo
com lágrimas ardentes,
até conseguir vê-lo.
Onde encontro erva verde,
onde encontro uma flor?
As flores estão mortas,
a relva está sem cor.
Então não levarei
recordações daqui?
Se a minha dor se cala,
quem falará de ti?
Congelada no peito
a imagem da mulher,
se o coração derrete,
teria que esquecer.
quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010
Por onde começar? Pelo inicio, é o melhor. Aliás, uma vez que o João esceveu aqui, no início deste Inverno, alguns dos versos das duas primeiras canções em alemão, vamos traduzi-las. Quem quiser comparar a versão original em alemão com estas traduções, terá que procurar (pedir-nos, p.e.) os poemas em alemão, porque eu não tenho paciencia para escrevê-los aqui. E aliás, estas traduções são tão afastadas do original...
1 - BOA NOITE!
Cheguei desconhecido
e assim torno a partir.
Maio foi tão querido
de ramos a florir!...
Ela falou de amor
e a mãe de casamento.
Apagou-se o fulgor
e é de neve o momento.
A hora da partida
não foi minha eleição:
só, traço a minha vida
entre esta escuridão.
Uma sombra de lua
me puxa pela estrada
e ao caçador, na rua,
persigo p'la pegada.
Porquê ficar à espera
que daqui me escorrassem?
Que ladre a vossa fera
aos que p'la casa passem!
Deus fez o amor assim,
amador do caminho,
daqui p'ra ali sem fim:
boa noite, amorzinho!
Não quero incomodar
teu sonho e teu descanso;
não deves escutar
meu pé furtivo e manso!
Escrevo ao teu portão
"boa noite!" ao passar,
p'ra que saibas então
que em ti sigo a pensar.
2 - O CATAVENTO
O vento brinca com o catavento
que está sobre a casa da minha amada.
Delirei logo, no meu pensamento:
apupa a minha fuga desgraçada!
"Devia ter-se dado conta logo
de que esta casa ostentava um brasão;
fidelidade em mulheres de fogo...
nunca devia ter essa ilusão."
O vento brinca com os corações,
como no telhado, mas mais baixinho.
Não entendem as alucinações?
Tem uma rica noiva, o vosso ninho!
1 - BOA NOITE!
Cheguei desconhecido
e assim torno a partir.
Maio foi tão querido
de ramos a florir!...
Ela falou de amor
e a mãe de casamento.
Apagou-se o fulgor
e é de neve o momento.
A hora da partida
não foi minha eleição:
só, traço a minha vida
entre esta escuridão.
Uma sombra de lua
me puxa pela estrada
e ao caçador, na rua,
persigo p'la pegada.
Porquê ficar à espera
que daqui me escorrassem?
Que ladre a vossa fera
aos que p'la casa passem!
Deus fez o amor assim,
amador do caminho,
daqui p'ra ali sem fim:
boa noite, amorzinho!
Não quero incomodar
teu sonho e teu descanso;
não deves escutar
meu pé furtivo e manso!
Escrevo ao teu portão
"boa noite!" ao passar,
p'ra que saibas então
que em ti sigo a pensar.
2 - O CATAVENTO
O vento brinca com o catavento
que está sobre a casa da minha amada.
Delirei logo, no meu pensamento:
apupa a minha fuga desgraçada!
"Devia ter-se dado conta logo
de que esta casa ostentava um brasão;
fidelidade em mulheres de fogo...
nunca devia ter essa ilusão."
O vento brinca com os corações,
como no telhado, mas mais baixinho.
Não entendem as alucinações?
Tem uma rica noiva, o vosso ninho!
Carnaval
Circo fez-me logo pensar numa das caracteisticas mais fascinantes e mais deprimentes do Inverno: o Carnaval. No Inverno passado, ao aproximar-se o Carnaval, percebemos que o Inverno já ia a meio e que nada tinhamos ensaiado. O projecto era, então, ensaiar duas canções por semana, para dar uma leitura às vinte e quatro canções durante os três meses de Inverno. A realidade foi meia dúzia de ensaios na segunda metade do Inverno. O resultado foi uma overdose de Schubert, ainda por cima quando em 2009 a Quaresma foi toda primaveril - de calor, sol, céu azul: nem vestígios de Inverno, nem um dia de chuva, a não ser no nosso coração, que de repente se deciciu a estudar o ciclo de Schubert com uma avidez de cumprir com o prometido. Este ano, não houve promessas... Curiosamente, agora que se aproxima o Carnaval outra vez, puz-me de repente a procurar velhos papéis do ano passado e de anos anteriores em busca de traduções dos poemas de Müller que tenho espalhadas por vários diários. O português é uma lingua muito traiçoeira, mas é a nossa. As traduções que consegui não passam de um esboço, de um intermédio, porque não são traduções literais - sacrifica-se aqui a perfeição dos significados para poder haver rima e métrica semelhantes às de Müller. Mas apesar do esforço de fazer uma tradução com rima e um pouco de sentido, não estão adaptadas ainda à música. Ou seja, não creio que se possa cantar isto sem ter que alterar notas. Não queremos alterar notas... pois não? Enfim, são apenas alguns esboços de anos passados, a maior parte do Inverno passado. Penso que já tinha publicado aqui "O Corvo" no ano passado. Essa é a 15ª canção do ciclo. Não sei porque decicimos publicar precisamente essa, mas cheia-me a Fibonacci... Enfim, continuemos com as traduções.
segunda-feira, 4 de janeiro de 2010
Circo

Acho que já temos sítio para fazer a nossa viagem. Não podia ser melhor. O circo. O Inverno é a altura do circo. Palhaços, trapezistas, cuspidores de fogo, animais com fome... E depois, e para começar a mostrar aqui alguma coisa de jeito, é preciso uns videos, pelo menos umas fotos, de ensaios, para já. Por isso temos que começar a ensaiar. Depois, quem sabe, uns esboços e o que vier mais. Cheguei a outra conclusão importante. Tem que ser em português. Temos que começar já a traduzir. Também vamos tratar disso.
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