terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

14 - A CABEÇA GRISALHA

O brilho branco que a geada
me espalhou no cabelo
fez-me grisalho por um nada
e alegrei-me ao sabê-lo.

Mas depressa se desvanece,
tenho cabelo escuro;
é a juventude o que acontece,
quão longe, o meu futuro!

Do pôr-do-sol à madrugada
muitos ficam grisalhos.
E a minha cabeça é poupada
após tantos trabalhos?


17 - NA POVOAÇÃO

Ladram os cães, arrastam as correntes;
as pessoas dormem em camas quentes,
sonhando-se o tanto que não conseguem,
fazendo o que devem e o que não devem:

E de manhã cedo é tudo apagado.
Mas lá tiveram o seu bom bocado
e esperam as fantasias deixadas
por encontrar nas suas almofadas.

Ladrem, cães de guarda! Mandem-me embora!
Não me deixem repousar a esta hora!
Dos sonhos já perdi todas as cores;
porque hei-de continuar entre os sonhadores?

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