quinta-feira, 4 de março de 2010

Aqui está o resultado depois da revisão, agora por odem. Não me parece que vá pegar mais nisto até ao próximo Inverno...


VIAGEM DE INVERNO
(Wilhelm Müller, tradução de Tiago Batista)


1 - BOA NOITE!

Cheguei desconhecido
e assim torno a partir.
Maio foi tão querido
de ramos a florir!...

Ela falou de amor
e a mãe de casamento.
Apagou-se o fulgor
e é de neve o momento.

A hora da partida
não foi minha eleição:
só, traço a minha vida
por esta escuridão.

Uma sombra de lua
puxa-me pela estrada
e o caçador, na rua,
sigo pela pegada.

Porquê esperar então
que daqui me escorracem?
Que ladre o vosso cão
aos que por aqui passem!

Deus fez o amor assim,
numa estrada perdida
vadiando sem fim:
boa noite, querida!

Não quero incomodar
teu sonho e teu descanso;
não deves escutar
meu pé furtivo e manso!

Escrevo ao teu portão
"boa noite!" ao passar,
e saberás então
que sempre te hei-de amar.


2 - O CATA-VENTO

O vento brinca com o cata-vento
que está sobre a casa da minha amada.
Delirei logo, no meu pensamento:
apupa a minha fuga desgraçada!

"Devia ter-se dado conta logo
de que esta casa ostentava um brasão;
fidelidade em mulheres de fogo...
nunca devia ter essa ilusão.

"O vento brinca com os corações,
como no telhado, mas mais baixinho.
Não entendem as alucinações?
Tem uma rica noiva, o vosso ninho!


3 - LÁGRIMAS GELADAS

Caem gotas geladas
na face a cada lado:
não tinha percebido
quanto tenho chorado?

Lágrimas, minhas lágrimas,
sois frias como o rio
que se converte em gelo,
como o orvalho mais frio?

Mas brotais do meu peito
quente como o inferno
querendo derreter
todo o gelo do Inverno.


4 – FIXAÇÃO

Busco na neve em vão
as marcas do seu passo
rasgando a relva verde
cingida no meu braço.

Quero beijar o chão,
romper a neve e gelo
com lágrimas ardentes,
até conseguir vê-lo.

Onde encontro erva verde,
onde encontro uma flor?
As flores estão mortas,
a relva está sem cor.

Então não levarei
recordações daqui?
Se a minha dor se cala,
quem falará de ti?

Congelada no peito
a imagem da mulher,
se o coração derrete,
teria que esquecer.


5 - A TÍLIA

Para lá do portão,
uma tília achei;
e quantos doces sonhos
nessa sombra sonhei!...

Gravei na sua casca
tantas frases de amor,
atraído para ela
na alegria e na dor.

Nesta noite profunda
tive que ir por ali,
e até mesmo no escuro
os olhos não abri.

E os ramos murmuravam
guinchando para mim:
aqui comigo, amigo,
terias paz por fim!

O vento, mesmo frio,
contra o rosto soprou;
e eu nem quis apanhar
o chapéu que voou.

Agora, há tantas horas
longe desse jardim,
sempre escuto essa voz:
terias paz por fim!


6 - TORRENTE DE ÁGUA

Muitas lágrimas caíram
dos meus olhos sobre a neve;
os flocos frios chuparam,
sedentos da dor que ferve.

Se as ervas querem brotar,
sopra ali um morno vento
e é o gelo a estalar,
neve branda derretendo.

Neve, vês as minhas penas,
diz: onde dá o teu caminho?
segue as lágrimas apenas,
levar-te-á o ribeirinho.

Com ele irás percorrer
a alegria pela estrada;
e se esta lágrima arder,
aí vive a minha amada.


7 - NO RIO

Tu, rio, que murmuravas
brilhante, alegre e selvagem,
agora estás tão calado,
nem saúdas à passagem!

Cobriste-te totalmente
de uma crosta congelada,
frio, imóvel, estendido
pela margem, pela estrada.

Com uma pedra bicuda
escrevi na crosta fria
o nome da minha amada
e também a hora, o dia:

o dia em que a conheci,
o dia em que fui embora;
formou-se um anel quebrado
do nome, do dia e hora.

Meu coração, neste rio
vês agora a tua imagem?
Também, sob a sua crosta,
entumesce assim selvagem?


8 - OLHAR RETROSPECTIVO

De tanto gelo e neve atravessar
já me ardem os dois pés sem piedade.
Não queria voltar a respirar
enquanto vir as torres da cidade.

Contra cada pedra o meu pé bateu,
fugi dali com passos apressados;
os corvos lançam neve ao meu chapéu,
de cada casa lançam cadeados.

Não foi assim, quando me recebia,
aquela cidade dos inconstantes!
Cantavam rouxinol e cotovia
ao desafio, às janelas brilhantes.

Tão redondas, as tílias floriam,
as ribeiras reflectiam o céu,
e dois olhos de donzela luziam! -
- foi assim que tudo te aconteceu!

Se esse dia me vem ao pensamento,
olhando retrospectivo, vacilo,
recuo, queria estar um momento
perante a sua casa, ali, tranquilo.


9 - FOGO-FÁTUO

Para o abismo mais profundo
um fogo-fátuo me atraiu:
e como vou voltar ao mundo?
isso nunca mais me afligiu.

Acostumei-me à perversão;
qualquer via vai dar ao fim:
a alegria e a aflição
são só fogo-fátuo, enfim!

Sigo agora um rio a secar,
calmo, na minha ondulação -
- cada rio tem o seu mar,
cada dor tem o seu caixão.


10 - DESCANSO

Agora noto como estou cansado
porque me deitei para repousar;
caminhando, mantive-me animado
por vias inóspitas, sem parar.

Os meus pés nunca pediram descanso,
que se parasse, o frio congelava;
o peso às costas parecia manso
e era a tempestade que me empurrava.

Na casa apertada de um carvoeiro
consegui encontrar o meu abrigo;
as feridas que fiz no corpo inteiro
ardem sem descanso, como um castigo.

Também tu, coração atormentado,
em luta, tão selvagem, tão valente,
sentes agora, com tudo parado,
a mordedura da tua serpente!


11 - SONHO DE PRIMAVERA

Sonhei com flores coloridas
como em Maio desabrochando;
sonhei com prados verdejantes,
com aves alegres cantando.

E quando ouvi cantar os galos,
o meu olhar foi acordado;
tudo é frio e escuridão,
crocitam corvos do telhado.

Quem pintou as folhas ali
no vidro da minha janela?
Riem-se assim do sonhador
que viu no Inverno a flor mais bela?

Sonhei com amor por amor
com uma bonita mulher,
com beijos e com corações
e a felicidade, o prazer.

E quando ouvi cantar os galos,
o meu coração despertou;
fiquei sentado aqui sozinho
pensando o sonho que passou.

Fechei os olhos outra vez,
no peito conservo o calor.
Quando vos verei, folhas verdes?
Quando terei o meu amor?


12 - SOLIDÃO

Como uma nuvem escura
anda pelo céu sereno
quando sopra pela copa
do pinheiro um vento ameno,

assim faço o meu caminho
arrastando os pés na estrada,
pela vida alegre e clara
sozinho e sem dizer nada.

Como o ar é tão tranquilo!
Como o mundo é tão amável!
Quando passei tempestades,
não era tão miserável.


13 - O CORREIO

Chega o correio a este canto!
Porque te sobressaltas tanto,
meu coração?

Teu correio não tem chegado.
Porque bates maravilhado,
meu coração?

Agora sim, vem o carteiro
de onde eu vivi o amor primeiro,
meu coração!

Vais lá saber do teu passado
e ver como ela tem passado,
meu coração?


14 - A CABEÇA GRISALHA

O brilho branco que a geada
me espalhou no cabelo
fez-me grisalho por um nada
e alegrei-me ao sabê-lo.

Mas depressa se desvanece,
tenho cabelo escuro;
é a juventude o que acontece,
quão longe, o meu futuro!

Do pôr-do-sol à madrugada
muitos ficam grisalhos.
E a minha cabeça é poupada
após tantos trabalhos?


15 - O CORVO
Um corvo veio comigo,
partiu da cidade;
sempre aqui como um amigo,
há uma eternidade.

Corvo, fantástico bicho,
não queres deixar-me?
Quando eu morrer e for lixo,
queres apanhar-me?

Já não há mais caminhada
para o meu cajado.
És por fim fidelidade
até ser sepultado!


16 - ÚLTIMA ESPERANÇA

Nos ramos, vê-se, aqui e ali,
algumas folhas coloridas;
em frente às árvores eu fico
com tantas ideias perdidas.

Fico a olhar para uma folha,
aí ponho a minha esperança;
o vento brinca com a folha
e treme a minha confiança.

Mas ai! que a folha cai então
e a esperança assim coitada;
eu próprio vou com ela ao chão
chorar a esperança enterrada.


17 - NA POVOAÇÃO

Ladram os cães, arrastam as correntes;
as pessoas dormem em camas quentes,
sonhando com tudo o que não conseguem,
fazendo o que devem e o que não devem:

e de manhã cedo é tudo apagado.
Mas lá tiveram o seu bom bocado
e esperam as fantasias deixadas
por encontrar nas suas almofadas.

Ladrem, cães de guarda! Mandem-me embora!
Não me deixem repousar a esta hora!
Dos sonhos já perdi todas as cores;
porque continuo entre os sonhadores?


18 - MANHÃ TEMPESTUOSA

A tempestade esfarrapou
o traje cinzento do Inverno!
Os flocos de nuvens flutuam
num suave combate interno.

E encarnadas chamas de fogo
entre as nuvens vão flamejando
a isto eu chamo uma manhã
ao meu gosto, assim, delirando!

O meu coração vê no céu
exactamente a sua imagem –
- é só a isto que eu chamo Inverno,
o Inverno frio e selvagem!


19 - ENGANO

Amigável, dança uma luz;
segui-la sempre é a minha cruz.
Sigo com gosto, reparando
que ela me seduz caminhando.
Ah! quem está como eu perdido,
vai-se no jogo colorido
que entre o gelo, a noite e o horror
dá uma casa de luz, calor,
e lá dentro uma alma querida -
- só fica a ilusão perdida!...


20 - O SINAL

Porque é que eu evito os caminhos
por todos os outros andados,
e busco atalhos escondidos
por altos rochedos nevados?

Terei cometido algum crime
que assim das pessoas me afasta?
Qual será o insensato fim
que para os desertos me arrasta?

Vejo setas pelas estradas,
pelas cidades onde passo;
e eu, em desmedidas passadas,
sem repouso para o cansaço.

Vejo um sinal que se insinua;
perante o meu olhar ficou;
tenho que seguir esta rua
da qual nunca ninguém voltou.


21 - ALBERGUE

O meu caminho trouxe-me a um cemitério.
Desejo aqui ficar pensando o meu mistério.
Grinaldas verdes indicam a albergaria;
Cansado de andar, chama-me esta terra fria.
Estão todos tomados os quartos aqui?
Cansado da queda, do quanto me feri,
albergue impiedoso, por ti sou rejeitado?
Voltemos ao caminho, ó meu fiel cajado!


22 - FORÇA!

Sacudo de mim a neve
se o vento a sopra a direito.
Canto, colorido e leve,
se sinto uma dor no peito.

Não escuto o coração,
para ele não tenho ouvidos;
o seu queixume é em vão:
só tolos choram gemidos!

Pelo mundo vou andando
contra o tempo e contra o vento!
e num deus se vai tornando,
quem na Terra O foi perdendo!


23 - OS SÓIS JUNTOS

Lá no céu eu vi três sóis a brilhar,
Segurei-os longamente no olhar;
e ali ficaram como que fixados,
não querendo ser de mim afastados.
Ah, mas vocês não são os meus três sóis!
Olhem para outro rosto qualquer, pois!
Também eu tive três, tão inocente:
e os dois melhores seguiram em frente.
Se só o terceiro se pudesse pôr!
Na escuridão estaria melhor.


24 - O HOMEM DO REALEJO
Para lá da povoação
está um homem do realejo;
os dedos, em congelação,
tocam o que podem e eu vejo.

Já nem sequer tem um sapato
para andar daqui para ali,
para as moedas tem um prato
mas dinheiro nunca lá vi.

Ninguém o deseja escutar,
ninguém quer olhar para ele
e os cães não deixam de ladrar
ao velho e à música dele.

Mas ele não tem qualquer pejo,
tudo vai deixando passar,
dá à mão e o seu realejo
nunca mais deixa de tocar.

Velho das alucinações,
e se eu ficasse aqui contigo?
meus poemas, minhas canções,
não queres tocar, meu amigo?